
[crítica originalmente publicada no Pink Vader]
Coronel Nascimento está sério e tenso com seu walk-talk na mão. Olhando pelo monitor de vigilância dos corredores de uma penitenciária do Rio de Janeiro, dá instruções para que Mathias surpreendenda os presos que estão em rebelião. Mathias respira fundo, olha pela mira de sua arma, aguardando apenas uma ordem.
Agora o bicho vai pegar.
“Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro” já chega mostrando o que o público quer ver. Afinal, seu antecessor fez sucesso justamente por acompanhar o duro treinamento e as ações espetaculares do BOPE. Com uma enxurrada de frases feitas e figuras que beiravam o “heróico”, o diretor José Padilha e o roteirista Bráulio Montovani acabaram sendo mal interpretados pelo primeiro filme, já que foram chamados de fascista por supostamente vangloriarem a ação do brutal do ex- Capitão e sua gangue do saco contra os traficantes do morro.
A verdade, avaliando o filme friamente, é bem diferente. Padilha por vezes coloca o cidadão na pele do traficante, principalmente na enigmática última cena, onde Mathias aponta a arma diretamente para o espectador. Mas, em um país tão cansado de violência e ávido por justiça, era óbvio que a figura do Capitão Nascimento virou válvula de escape.
Mas dessa vez tudo é diferente. O BOPE é uma instituição desacreditada, jogada as moscas, e Mathias é expulso da corporação e volta pro “batalhão dos corruptos”. Nascimento acaba indo trabalhar na secretaria de segurança pública do Rio de Janeiro, como ele mesmo diz “no coração do sistema”, e de lá tenta resolver os problemas do batalhão. Com ele no comando geral, o BOPE toma conta de todas as favelas do Rio, acabando com o tráfico de drogas. O que ele não esperava era que com os grandes traficantes fora da jogada, os policiais corruptos teriam espaço para tomar conta da favela, com a ajuda de comandantes, deputados e até do próprio governador. Nascimento é esmagado pelo sistema do qual ele agora faz parte, e fica completamente impotente perante a corrupção.
A atuação maravilhosa de Wagner Moura, assim como a excelente montagem de Daniel Rezende, tornam muito perceptível a diferença do Coronel Nascimento em ação, e do Nascimento subsecretário, atrás de uma mesa. A visível depressão do personagem piora a medida que seu desgastado relacionamento com o filho se torna cada vez pior.
Com tanta coisa na cabeça, Nascimento acaba fechando os olhos pra milícia e esquecendo de Mathias, a quem havia prometido ajuda. Aliás, a cena em que Mathias e ele discutem mostra que o próprio Nascimento também se enxerga – através do espelho – como um dos vilões.
As nuances do personagem de Moura são contraponto para outros personagens mais “caricatos”. É impossível não comparar o chefe da milícia policial Russo (Sandro Rocha) com Dadinho, outro personagem escrito por Montovani. Os dois têm a mesma ambição de dominar todas as favelas do Rio, e inclusive usam uma mesma frase de efeito para isso. O roteirista não deixa dúvidas de que aqui polícia e bandido são a mesma coisa.
O corrupto Fábio (Milhem Cortaz) e o apresentador de TV / deputado Fortunato (André Mattos) servem de alívio cômico para o longa. As frases feitas de Fábio e a clara sátira que é Fortunato rendem boas risadas. (Atentem que nem Tessália twitess ficou de fora e tem seu “fity-fity” usado como bordão)
O batalhão do BOPE também é apresentado como um único personagem. Frágil e extremamente manipulável, é parte fundamental na discussão política do filme. Quem está por trás das mortes? Quem realmente merece o rótulo de fascista? Durante todo filme o BOPE comete erros, é enganado e usado como segurança particular de Nascimento. E sempre mandado por algum superior. “Eu nunca puxei o gatilho sozinho” constata o coronel sobre seus anos como capitão.
Tropa de Elite 2 tem cenas de violência ainda mais agonizantes e explícitas que o primeiro, mas isso deixou de ser o foco.
É visível que a franquia amadureceu, assim como a discussão que permeia o filme. Não temos mais o clássico embate bandido x mocinho. A liberdade de criação nesse segundo filme (o primeiro foi inspirado no livro “Elite da Tropa”) colaborou para que Bráulio e Padilha deixassem ainda mais clara a sua posição. Nessa história todo mundo é vilão, e o brilhante roteiro coloca o dedo na ferida mais profunda do país, a corrupção.
O filme transforma os heróis do primeiro em joguetes de vilões ainda maiores, levando a discussão para outro nível. Faz o Coronel Nascimento trocar sua arma por uma cadeira em uma CPI, faz o expectador pensar no nosso sistema político, e, depois de jogar toda a merda no ventilador, faz uma pergunta que infelizmente todos nós sabemos a resposta:
No fim das contas, você sabe quem paga por tudo isso?








